Artrites microcristalinas e comorbidades cardiovasculares e metabólicas
Resumo
As artrites microcristalinas, notadamente a gota e a doença por deposição de pirofosfato de cálcio (CPPD), são atualmente reconhecidas como condições sistêmicas associadas a uma elevada carga de comorbidades cardiovasculares e metabólicas. Esta revisão sintetiza evidências recentes que reforçam o papel dessas artropatias no continuumcardiovascular, desde a aterosclerose subclínica até eventos maiores (MACE). Na gota, a hiperuricemia e a inflamação por cristais de urato monossódico correlacionam-se com um espectro ampliado de condições, incluindo aterosclerose, dislipidemia, hipertensão arterial, doença renal crônica, diabetes mellitus, insuficiência cardíaca, arritmias, obesidade e fígado gorduroso. De fato, a síndrome metabólica pode ser verificada em 46,8% dos pacientes com gota. A associação da hiperuricemia com esses desfechos é tão notória que em 2025 se propôs que ela fosse incluída nos critérios NCEP-ATPIII para definição de síndrome metabólica. De fato, a hiperuricemia pode acarretar a ativação oxidativa via geração de espécies ativas de oxigênio, disfunção endotelial, inflamação crônica, ativação do sistema renina-angiotensina e resistência insulínica. Adicionalmente verificou-se que os surtos agudos de gota surgem como gatilhos potenciais para eventos cardiovasculares agudos. Na CPPD, dados também apontam para aumento de risco cardiovascular, possivelmente pela propensão à calcificação não apenas de tecidos cartilaginosos musculoesqueléticos, como também da parede de alguns vasos. Além disso, a inflamação característica das crises de CPPD parece estar agudamente relacionada ao desencadeamento de eventos cardiovasculares pós-crise. Apesar das múltiplas associações observacionais, ensaios clínicos randomizados recentes não demonstraram um benefício consistente da terapia uricorredutora na redução de desfechos cardiovasculares graves, sugerindo que o ácido úrico atua predominantemente como um marcador de risco complexo. Conclui-se que o manejo dessas artrites exige uma abordagem multidisciplinar, com foco no rastreio e controle rigoroso dos fatores de risco cardiometabólicos para mitigar a morbimortalidade associada a essas doenças inflamatórias crônicas.
Unitermos
Gota; doença por deposição de pirofosfato de cálcio (CPPD); ácido úrico; doenças cardiovasculares; síndrome metabólica.Correspondência: Ricardo Fuller, e-mail: [email protected].
Como citar este artigo: de Mello FM, Fuller R. Artrites microcristalinas e comorbidades cardiovasculares e metabólicas. Rev Paul Reumatol. 2025 out-dez;24(4):48-57. DOI: https://doi.org/10.46833/reumatologiasp.2025.24.4.48-57.
Os autores não contaram com apoio financeiro.
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